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Ver o que o passado (ou)viu

Reconstituição espacial e acústica da Sé Velha de Coimbra (séc. XVI)

A Sé Velha de Coimbra hoje
Um palco vazio.

Ver o que o passado (ou)viu parte de um problema essencial: a experiência contemporânea de um edifício histórico é a experiência de um palco vazio, desactivado e silencioso. Longe de resultar em desencanto, esta experiência do património — que se reinventa e reactualiza — lança-nos antes na tentativa de (re)conhecimento do diálogo entre a arquitectura, os equipamentos móveis que a transformaram em cenário multímodo e multissensorial, e o som que terá feito parte do seu quotidiano.

Marcador emblemático do poder emergente de um reino recém-criado e de uma capitalidade que a retórica romanticamente medievalista e crescentemente nacionalista dos séculos XIX-XX não perdeu de vista, a Sé Velha de Coimbra foi sendo despida do que ainda restava de um interior outrora compartimentado em diversos espaços e declinado em diferentes volumes, profusamente decorado, visualmente saturado. Mas, ao contrário do que sucedeu nestes séculos, temos hoje a tecnologia, os dados e as ferramentas necessárias para devolver ao edifício aquilo que sucessivamente perdeu, ensaiando hipótese de reconstituição sem intervir sobre o edificado e sem ameaçar a sua integridade.

O palco reconstituído.

De modo a melhor refletir o dinamismo cultural, litúrgico, artístico e musical do longo século XVI , a proposta de reconstituição espacial e acústica da Sé Velha de Coimbra ancora-se em dois momentos-chave:

  • 1543 — ano da morte de D. Jorge de Almeida, bispo de Coimbra desde 1483, e impulsionador de notáveis obras de renovação e enobrecimento do edifício;
  • 1605 — término das obras de renovação empreendidas por D. Afonso de Castelo Branco no tecido da igreja, com particular impacto no coro-alto.

A partir destas duas reconstituições, pretende documentar-se as transformações ocorridas no espaço interno da Sé entre os episcopados de dois dos mais famosos prelados de Coimbra, testando o comportamento sonoro do edifício em cada um dos momentos. Este exercício de reconstituição implica, desde logo, devolver ao interior da catedral:

  • um coro-alto e respectivo cadeiral, de duas ordens de cadeiras;
  • dependências anexas instaladas no trifório (como o antecoro, a casa do cartório e a casa dos órgãos);
  • um coro-baixo fechado sobre si, também com um cadeiral de duas ordens;
  • duas capelas laterais com idêntica dimensão,
  • o dobro do número de altares;
  • um revestimento de azulejo cobrindo as paredes da igreja, colunas e arcos;
  • uma profusão de cortinas e outros revestimentos têxteis.

Estes e outros dados ganharão expressão volumétrica no modelo 3D da Sé, permitindo espacializar o seu interior, testar hipóteses de adequação e redimensionamento dos equipamentos e, sobretudo, informar a reconstituição acústica.

Do monumento inerte, silencioso, despido, uniforme, amplo nasce então um edifício vivo e orgânico, sonoramente rico, densamente (re)vestido e adornado, frequentemente compartimentado, multiespacial e multifuncional.

O objeto sonoro.

O objeto sonoro que preencherá o palco reconstituído corresponde a um dos momentos de maior solenidade litúrgica, evocadores da plena utilização dos espaços físico e humano de uma catedral ocidental quinhentista. O Ofício de Defuntos, inscrito no calendário santoral mas sobretudo enquanto celebração de uma figura maior local ou nacional, era definitivamente consumidor, até do ponto de vista normativo, dos recursos litúrgicos, cenográficos, arquitetónicos e musicais do edifício religioso. Um dos momentos mais impactantes e agregadores da cidade e um dos que mais bem reflete a função memorativa de uma Catedral.

Entre as fontes de polifonia hoje conservadas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, os manuscritos musicais 6 e 34, duas referências nacionais no que diz respeito à polifonia para o Officium Defunctorum, permitem-nos ter um repertório que cobre a primeira (MM 6) e a segunda metade (MM 34) do século XVI. Apesar de ainda não ser possível assegurar que algum destes manuscritos é proveniente do serviço musical da Sé Velha, eles são inegavelmente produto da cidade de Coimbra e o seu conteúdo, ibérico, corresponde perfeitamente ao que seria suscetível de ser interpretado numa Missa de Requiem ou numas Matinas de Defuntos na Sé de Coimbra, ao longo do século XVI. Por outro lado, a escolha de repertório polifónico procura também corresponder ao desafio laboratorial e experimental deste projeto. Mais exigente em termos espaciais, ao implicar a disposição calculada e articulada de cantores, instrumentistas e órgão no interior da igreja, adequa-se na perfeição à reconstituição histórica dos espaços no seio da igreja.

A experiência do som.
A área científica da Engenharia Civil, vertente da Acústica, procurou fazer uso da modelação computacional para contribuir para a reconstituição espacial e acústica da Sé Velha de Coimbra, através da concretização dos seguintes objetivos:
  • Avaliar in situ os principais parâmetros acústicos caracterizadores da situação atual de uma catedral portuguesa, e fazer uso destes parâmetros na calibração do modelo acústico computacional 3D;
  • Analisar, a partir de simulação acústica computacional, o comportamento acústico do espaço histórico, após a reconstituição (ou retro-incorporação) das principais alterações realizadas naquele espaço, desde o século XVI. Avaliar os principais parâmetros acústicos caracterizadores da situação acústica do espaço da catedral àquela data;
  • A partir dos registos gravados em câmara anecoica (vozese instrumentos), fazer uso dos modelos acústicos computacionais 3D com o intuito de reproduzir virtualmente aqueles registos, através da sua auralização em condições representativas do espaço acústico do século XVI.